Escolhi trazer esse tema, não como uma crítica ao saber médico e aos medicamentos, mas sim à atribuição de uma hegemonia da saúde, que muitos de nós não questionamos. Quando somamos outros saberes e o indivíduo que sofre como protagonista do seu cuidado, podemos aproximar-nos da saúde de uma forma multidisciplinar e integral (Bio/física/psíquica/social/espiritual).
A patologização dos sofrimentos psíquicos naturais em nossa vida, como tristeza, infelicidade, frustrações, ansiedade, angústia, irritação, perdas, lutos etc, e a medicação banalizada destes podem suprimir a iniciativa da própria pessoa em lidar com a sua dor, e aquilo que abafamos, e não conseguimos elaborar, acaba em gerar ainda mais sofrimento. Não é nenhuma surpresa, então, que a infelicidade, que muitas vezes mascaramos e fingimos não existir, apareça tão penosa em nossas relações.
Por isso é tão importante olhar para o indivíduo em sua singularidade, e o sofrimento não necessariamente como uma patologia, mas como mais uma forma de existir em determinado contexto, com significados e expressões da sua humanidade. Se sustentarmos esse processo, podemos ressignificar aquilo que se faz necessário em nossa vida. Temos o direito de escolher o tratamento mais adequado em cada caso, seja ele medicamentoso ou não. A psicoterapia, por exemplo, acolhe e dá suporte enquanto acompanha esse intenso movimento do sujeito em busca de sustentar e transformar a sua forma de existir.
É importante ressaltar que não se trata de negar os avanços da indústria farmacêutica e dos tratamentos médicos, mas de trazer a preocupação com o uso indiscriminado de psicofármacos, na tentativa de evitar a automedicação, os diagnósticos indevidos e os efeitos prejudiciais na saúde e consequentemente o estigma e o preconceito que a sociedade traz junto a esses diagnósticos. Para isso é preciso informar e conscientizar as pessoas para que busquem maneiras mais saudáveis, humanas, amparadas e eficazes de cuidar da sua saúde mental.


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